
Economia Criativa do Pará: Por que o Mundo Precisa Reconhecer Nossa Potência
Quem teve a oportunidade de ir ao show Aurea Amazônia, do DJ Alok, presenciou um fenômeno, que ao meu ver, é histórico.
Não, o fenômeno a que me refiro não é exatamente o show do DJ paulistano que, aliás, foi fenomenal - um espetáculo visual e musical de extrema qualidade e deslumbramento. Alok trouxe a Belém só o filé! Além do que já tinha apresentado no Rio de Janeiro e Brasília, inaugurou por aqui ineditismos planetários, como uma performance de drones integrada com o que a sua pirâmide projetava (nas outras apresentações, os shows de drone eram independentes). Figuras formadas por drones pareciam sair magicamente de dentro da pirâmide e ganhar os céus da cidade em um incrível balé de luzes. Uma viagem!
Estes deslumbres, inclusive os ainda não vistos na Terra, lançados em Belém, trouxeram mais holofotes ainda para a nossa querida cidade das mangueiras, ou melhor, cidade da COP 30. O show, aliás, abriu contagem regressiva para a primeira COP da Amazônia. Amazônia que tem sido, de longe, um dos temas mais discutidos nas 29 anteriores.
Tudo isso é, sem dúvida, fenomenal. E histórico! Mas, a meu ver, o grande destaque desse evento de alcance mundial não foi o paulistano Alok fazer um show incrível na Amazônia. Foi os paraenses darem um verdadeiro show no palco mundial aberto por Alok. E quando falo em “dar um show”, não falo apenas em subir lá e cantar. Mas fazer quem estava além do palco ir ao delírio! As 250 mil pessoas no Mangueirão e os milhões nas plataformas digitais.
Não é exagero dizer que, o que realmente fez tremer no show do Alok, não foi o Alok. Foram os paraenses! Pergunte para qualquer pessoa que foi ao evento. E isso não diminui em nada o Alok, pelo contrário, o engrandece. Porque demonstrou respeito, conhecimento e admiração sobre nosso chão, nosso jeito de ser, tocar, falar, criar e ser. Entendeu e cumpriu a sua missão: jogar holofotes para o pensamento sustentável, mas também para a gente e a cultura da Amazônia.
O fenômeno a que me refiro consiste no fato de parte importante da nossa economia criativa ter ganho um palco com público nacional e mundial de milhões.
É histórico porque essas pessoas viram um dos maiores DJs do mundo reverenciar as aparelhagens paraenses como precursoras desse jeito espetacular de ser Disk Jokey - Pop Som, Carabau, Tupinambá, Crocodilo, entenderam, há décadas, que o show do cara que comanda o som é muito mais que musical. Deve ser, também, um grande show visual. O Alok apenas (apenas?) elevou isso a 54ª potência.
Foi um fenômeno histórico porque levou mais holofotes ainda à música e ao jeito de ser, criar e se apresentar que há cerca de meio século já treme o chão das periferias de Belém com suas Joelmas, Batidões, Amarantos, Carlos Santos e Chimbinhas.
Foi um fenômeno emocionante ainda ver o nosso grande mestre da criatividade musical performática, nosso Pinduca, cantar com extrema vitalidade para 250 mil pessoas delirando com seus clássicos. Alguns dizem que Pinduca é nosso Elvis Presley, ou o Luiz Gonzaga Paraense... Acho que Pinduca é mais que isso. Pinduca é o Pinduca!
Melhor ainda foi ver que ali, no camarote do show, que contava com pouco mais de 5 mil privilegiados que tiveram a chance de pagar cerca de R$200,00 para ter mais conforto, o delírio era tão grande quanto o da massa que entrou “de grátis”. Eles enlouqueceram miseravelmente no mesmo ápice: os shows dos paraenses.
Demorou para chegar a isso, mas podemos dizer que a criatividade musical genuinamente nossa, aquela que veio lá das lojas de discos do comércio, das aparelhagens da Terra Firme, de Ponta de Pedras, de Bragança, das Casas de Show do Telégrafo, das ruas do Guamá e da Cremação, chegou em Nazaré, Umarizal, Copacabana, Esplanada dos Ministérios e Faria Lima.
Mas o fenômeno não para por aí. Além dos músicos convidados, toda a estrutura de palco era de empresas paraenses. A transmissão ao vivo, via web, que levou o show a milhões de pessoas pelo mundo, era feita por empresa paraense. No camarote, tinha barraquinha de lanche de empreendedores paraenses. Patrocinadores do show privilegiaram empresas paraenses para fazer suas ativações de marca. Justamente por isso tive o privilégio de assistir e trabalhar no show.
E por que cargas d’água estou eu aqui, um publicitário, no portal do Clube de Criativos do Pará, falando de show do Alok, brega, carimbó, aparelhagem... ? É simples. A nossa economia criativa é enorme, abrangente, genuína, potente! A publicidade, o design, são parte dela. O show do Alok apenas comprova que nós merecemos estar na rota da economia criativa brasileira e mundial. Na rota dos grandes eventos, das grandes produções do cinema, dos shows, novelas; das grandes verbas publicitárias nacionais, das colaborações regionalizadas de marcas que precisam falar com nosso público; da nova indústria fonográfica, que graças a potência da nossa música, já começa a premiar o talento paraense mundialmente e nacionalmente.
Somos criativos por natureza, pela força do ambiente que vivemos! Somos criados para superar adversidades econômicas e invisibilidades sociais e regionais. Onde se vê culinária tão genuína? Que região faz cinema premiado com tanta qualidade e com tão pequeno orçamento? Que região tem tantos prêmios na publicidade nacional com contas de varejo e tão pouca verba? E esse nosso jeito de falar tão brasileiro e próprio? E essas misturas sintetizadas tão originais de ancestrais nativos, europeus e africanos? O que é o Carimbó? Batuque africano, roupas aportuguesadas e adereços indígenas? O que é a originalidade da maniçoba, gente? Como explicar o tacacá? Por que demorou tanto para sermos “vistos”?
Além de rota, queremos ser fonte de brasilidade. Por que os símbolos brasileiros são tão cariocas e paulistas? A feijoada, o carnaval, o samba, o “Fla-Flu”, o “Coringão contra o Porco”... Ou ainda, por que pensam que da Bahia pra cima tudo é baiano (ou Paraíba), tudo é Nordeste? Nada contra os outros brasis. Mas que tal começarmos a transformar o açaí em um símbolo brasileiro? Que tal pensarmos o tucupi brasileiro, o cupuaçu brasileiro, o bacuri... Mas peraí, calma lá. Sem deixar de reconhecer que é Pará, ok? Nada de “Castanha-do-Brasil”. É brasileira, mas é Castanha-do-Pará! Assim como o Vinho do Porto é português e o Queijo-de-Minas é brasileiro.
Espero sinceramente que o show de Alok tenha sido apenas um exemplo de reconhecimento em grande escala de nossa economia criativa. Penso que a COP 30 tenha que trazer, a reboque, esse tipo de “palco” para nossos criativos. Nossos profissionais - não só os de cima do palco, mas também os que ficam por trás - tem um talento alokecedor! É preciso que o Brasil e o mundo conheçam e reconheçam, em definitivo, que o brega, o açaí, o tucupi, o Pinduca, a Dona Onete, o Mestre Laurentino, o DJ Dinho, a Zaynara, o Crocodilo, a Gang do Eletro, o Nilson Chaves, o Cacá de Carvalho, o Salomão Larêdo, a Fafá de Belém, o Emmanuel Nassar, o “égua”, o “tédoidé!”, o “ê, maninha”, o Galvão, o Mendes, o Zé Paulo são patrimônios paraenses do Brasil sil sil! Isso seria Pai D’égua!
Era dividida, basicamente, entre áreas reservadas dos patrocinadores, do Governo do Estado (que também era patrocinador) e área paga, cujos ingressos giravam em torno de R$200,00




