
Castanha-do-Pará: Você Sabe por que Ela Tem Esse Nome?
Dizem que Belém e o Grão Pará surgiram para proteger as drogas do sertão, que incluía justo a tal da castanha. Então, por isso que é Castanha-do-Pará?
Isso já faz mais de 400 anos. A fundação da Capitania do Grão-Pará foi lá em 1621. Aliás, “pará” significa grande rio. O “grande rio”, no caso, é o Amazonas. A capitania do “grande rio” foi criada para proteger e ocupar as margens do Amazonas, o território norte do Brasil, das invasões contrabandistas de holandeses e ingleses, que queriam a castanha e outras especiarias valiosas na Europa. A tal castanha, garantida para a colônia pela Capitania, só tinha aqui no Grão-Pará. Ficou, por isso, conhecida como Castanha-do-Pará. Desde aí.
Mas já faz algum tempo que existe um incômodo com este nome que, na prática, alterou a nomenclatura em algumas embalagens de produtos e até em documentos do Ministério da Agricultura. E o incômodo é com a palavra “Pará”.
E já tentaram de tudo para tirar essa palavrinha teimosinha do nome da castanha, mas o povo continua chamando de Castanha-do Pará, mesmo sendo o Amazonas o maior produtor atualmente, cujo território antes fazia parte do Grão-Pará e em 1850 se emancipou.
Então, que teimosia! Castanha-do-pará entrou na língua portuguesa só porque praticamente todos os falantes da língua no Brasil chamam assim há 4 séculos? Tem outros produtos que tem nomes ligados a regiões, cidades, países... Então vamos ver alguns exemplos, só pra dar uma comparada?
Tem o feijão carioca.
O que poucos sabem é que o maior produtor de feijão carioca é... tchan tchan tchan tchan! Mato Grosso. Rio de Janeiro não é o maior produtor de feijão carioca, assim como o Pará não é o maior produtor de castanha-do-pará. Mas aí pode? Rio de Janeiro é bacana – praia, Copacabana, Ipanema, samba, ex-capital do Brasil, cenário preferido das novelas, que cidade linda... Alguém se atreveria em mudar o nome do “feijão carioca”? Mas, castanha-do-pará...
Vamos pensar um pouco mais. Tem a castanha portuguesa.
Essa sim! Pode ser chamada de acordo como o dicionário chama. Sua origem? Portugal! E o maior produtor? China. Epa, peraí! Se China é o maior produtor, então não é castanha portuguesa! É castanha chinesa! Nananinanão! É um nome secular: CASTANHA PORTUGUESA. Vinha de Portugal. Dane-se se Portugal trazia da China. “Mas e castanha-do-pará? É chamada assim há 400 anos! Saía de Belém para o mundo”. Não, Castanha-do-Pará não é legal. O Amazonas é o maior produtor, então amazonense reivindica que seja castanha-do-amazonas. O Acre também produz, então pode ser castanha-do-acre. O Maranhão também exporta, então lá eles chamam de castanha-do-maranhão! Para “não ter mais briga”, algum diplomata de plantão já carimbou “castanha-da-amazônia”. E se Roraima produzir mais? castanha-de-roraima! Ah, a Bolívia também produz, viu? Castanha-da-bolívia então também pode!
Mas voltando para Portugal, tem o Vinho do Porto.
Produzido na cidade do Porto? Não! Quem produz o vinho do Porto não é Porto. É a região Douro, em Portugal, bem distante da cidade do Porto. Uma das cidades produtoras é São João da Pesqueira. A cidade do Porto apenas exportava o produto, era apenas um entreposto, assim como Belém fazia com a castanha. Vinho do Porto pode. Castanha-do-pará.... humm, sei não!
Outro caso: Limão Siciliano.
Tem muito na Sicília, região italiana. Maior produtor? Argentina, cidade de São Miguel de Tucumã (que não tem nada a ver com a fruta tucumã, que tem muito no Amazonas). Então, é Limão Tucumaense? Não, continua Limão Siciliano forever enever. Mas e a Castanha-do-Pará? Não, não pode! Tem que ser castanha-do-lugar-que-mais-produz-ou-do-Brasil-ou-do-Acre-ou-da-Amazônia-ou-do-Maranhão-ou-de-qualquer-outro-lugar-que-não-seja-o-Pará.
Ah, peraí! Queijo de Minas se produz mais em Minas Gerais.
Então tá tudo certo! Queijo do Marajó também, muitos produtores se encontram na ilha do Marajó, que fica do Pará! Pronto, vamos nos dar por satisfeitos e deixaremos a castanha-do-acre/amazonas/amazônia/maranhão/bolívia/amapá/brasil seguir seu caminho. Agora, se porventura, se alguma cidade, alguma outra ilha, um país, outro estado, o que seja... Se a ilha de Madagascar passar a ilha do Marajó em produção do queijo em 1 grama, aí temos que nos conformar em chamar Queijo de Madagascar?
Assim também devemos ficar espiritualmente preparados em relação à Farinha de Bragança.
Quando povoarem Marte e produzirem lá Farinha de Bragança, e Marte passar a ser a maior produtora interplanetária, vai se chamar farinha de Marte.
Aliás, acreditas que tem gente que jura que Farinha de Bragança é feita em Bragança Paulista? Talvez por isso está durando tanto esse nome. Assim como Pastel de Belém. Se fizesse referência a Belém do Pará, já teria mudado há uns 3 séculos.
Mas e Castanha-do-Pará? Sério agora: por que não?
Por que esse empenho em mudar o nome da castanha? Chegaram a oficializar “Castanha do Brasil”, por causa da “Brazil Nuts”, que acho que inventaram para facilitar o entendimento lá fora. Aliás, porque precisou “traduzir” para o inglês? Não nos acostumamos aqui a falar suflê, mousse, hamburguer, cuscuz e mungunzá? Mas voltando ao nome, por que mudar? Me desculpem, mas os falantes brasileiros da língua portuguesa consolidaram “castanha-do-pará” há muito tempo. É um nome com mais de 400 anos! Está na fala do dia a dia em todo o país, na cultura, nos dicionários, na língua portuguesa, como a castanha portuguesa, o feijão carioca, o queijo de minas, o limão siciliano, o limão taiti, o champanhe (que tem origem na província francesa de Champagne). Linguiça calabresa, calabresa toscana, filé à parmegiana, sorvete napolitano, presunto parma, uva Itália, bife à milanesa, sanduíche americano, queijo suíço, maçã fugi, laranja bahia, moqueca capixaba, porquinho da índia, diabo da tasmânia... Tudo pode! Mas se é “do Pará” não pode?
Aliás, quem autorizou chamarem “Estado do Pará”, já? O “grande rio” corta toda a região norte! Tá na hora de rever isso aí, eim? Ô palavrinha teimosinha!






